Quando uma criança nasce, todos os que a cercam estão conscientes da importância do exemplo e das rotinas na educação e na socialização dessa criança. À partida, ninguém traz inscrito no seu código genético regras sociais, éticas, comportamentais, e é a sociedade, nos seus agentes mais próximos – família, educadores, professores, amigos - que lhe incutirá esses mesmos princípios, valores e comportamentos. Mas de nada serve falar das coisas sem as pôr em prática, de forma sistemática, no dia-a-dia. Exigir de uma criança que seja pontual quando os pais não o são é uma irresponsabilidade e uma contradição que facilita a rebeldia na criança, ao perceber que lhe impõem regras que os adultos são incapazes de cumprir. A educação de uma criança faz-se mais através do exemplo e dos procedimentos de rotina que de longas práticas de oratória. Fazer um discurso inflamado sobre as vantagens de determinado comportamento em detrimento de qualquer outro é muito menos eficaz que agir de modo correcto. A acção aqui é como a imagem “vale mais que mil palavras”. De pouco adianta também o exemplo esporádico, a rectidão e o rigor pontuais, porque a educação, a instrução e a socialização são incompatíveis com o desleixo e a inconsequência. Cada dia conta, na formação de uma criança. O tempo não pára e a evolução dos primeiros anos de vida é determinante no sucesso da criança quando aprende a ler e a escrever, a expressar-se e a criar, a contar e a extrapolar ideias, a formar opiniões, a sintetizar e a exprimir-se.
Para que a leitura se transforme numa capacidade ou competência, deve ser treinada diariamente, como se de um desporto de alta competição se tratasse. Até porque os nossos jovens estão a ser instruídos para serem equiparados a outros jovens, por esse mundo fora! Parece-nos, porém, que muitas vezes, as prioridades estão algo baralhadas, tanto nas cabeças dos pais, como nas dos jovens. Senão, vejamos: o treino físico é importante para muitos pais, que inscrevem as crianças em desportos, em clubes, mas quando se fala em treinar a leitura ou a capacidade de escrita, numa base diária, semanal, persistente, acham essa ideia muito estranha, porque pode colidir com o treino de futebol, de ténis, de ginástica… As novas tecnologias e a Internet são também privilegiadas, em detrimento da leitura e da escrita. As actividades extra-curriculares assumem, cada vez mais, um cariz prioritário nas vidas dos novos pais e das crianças e adolescentes que se esquecem, amiúde, que vivemos num mundo global e globalizante, sem dúvida, mas que é precisamente por esse cariz de universalidade que precisamos cada vez mais de ser competentes, rigorosos, eficazes e eficientes em todos os domínios. A sociedade competitiva não se compadece com jovens analfabetos funcionais, com adultos que não sabem escrever uma carta ou expor as suas ideias. A sociedade do século XXI não admite fracassos e a iliteracia não é sustentável num mundo de desafios cada vez maior e mais aguerridos.
Esquece-se que a leitura e a escrita começam muito antes da criança entrar na escola.
A leitura começa no primeiro livro que a criança agarrou e meteu na boca, pensando que era bom para mastigar.
A leitura começa na primeira página de jornal em que ela se mascarrou, com ar deliciado.
A leitura começa na tentativa de virar a página da revista que a mãe está a ler enquanto agarra a criança ao colo.
A leitura começa no livro de pano ou plástico que se põe no banho, para a criança brincar.
A leitura começa no livro infantil só com imagens que se dá à criança enquanto ela se familiariza com essa tarefa hercúlea de começar a usar o bacio.
A leitura começa nas histórias contadas ao adormecer.
A leitura começa nas canções de roda, nas lenga-lengas, nos trava-línguas…
Quando se fazem estas coisas, está-se a investir na formação da criança-leitora, através do incentivo, do exemplo, de alguém a quem imitar e de uma rotina gostosa de manusear livros, de os virar e revirar, de os separar, de se irritar com eles ou de os amar perdidamente.
O papel dos pais, dos avós, dos amigos, dos professores, enfim, do seu círculo emocional mais restrito, são primordiais na formação do leitor e na divulgação dessa cultura de ler por prazer e não como tortura.
E se virmos uma criança ou um jovem a ler, apenas “porque sim”, podemos ter a certeza que ali está um leitor.
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