Comunicação apresentada - LER PARA SER
Porque todos nós, que vimos a estes eventos sobre Literatura Infantil, somos, antes de mais, amantes do ouvir e do contar, e só depois, leitores, começo por vos contar uma das minhas experiências, a propósito de leitura.
Depois de nove anos a leccionar numa escola do Algarve, decidi, em 2001, concorrer para Lisboa. Não fazia a menor ideia de que escolas eram melhores, e guiei-me instintivamente pelos nomes de locais que me eram familiares. Fui colocada na EB 2,3 das Olaias, só com 2 turmas e apoio à Biblioteca Escolar. A turma do 6.º ano era composta por meninos e meninas entre os 13 e os 17 anos, fartinhos de saber o que era repetir anos e com doutoramento na disciplina de fazer perder a paciência a um santo. Percebi logo à partida que ia ser muito difícil predispô-los a mudar de atitude e a tentar aprender, mas lá fomos conseguindo gerir os dias. Havia cedências de parte a parte, para que as coisas não ficassem feias, pois era uma escola em que 90% dos alunos tinham contacto directo com o mundo da droga, e em que os encarregados de educação estavam ausentes, muitos deles na cadeia por uso de substâncias ilegais e narcotráfico. Tínhamos decidido, nesse ano, dar A Floresta, da Sophia, como obra de leitura integral e eu dava voltas à imaginação para ver como iria conseguir fazê-lo. Falei com eles, com muito jeitinho. Riram-se, gozaram, afirmaram peremptoriamente que jamais o fariam. Ler um livro inteiro??? Nem pensar !!! Fui para casa a matutar naquilo e, na aula de dois tempos seguinte propus-lhes que lessem uma, no máximo duas páginas do livro, que eu me encarregaria de lhes facultar. Torceram o nariz, mas aquiesceram. Fotocopiei então o livro, a que retirei o número das páginas e distribuí ao acaso uma folha a cada um dos alunos. Propus uma leitura-jogo, em que cada um, ou cada par, tentaria descobrir qual era a página que ligava com a que o colega acabara de ler. E de leitura que ninguém queria, passámos a leitura desejada, a leitura-festa, a leitura participada e construída por todos e cada um. Entusiasmaram-se, fizeram trabalho de pares, escreveram perguntas e respostas, ilustraram, e a partir daí, quando algum professor faltava, iam ter comigo à Biblioteca da Escola e entretinham-se a desfolhar livros, a ler excertos e a trocar impressões sobre tramas e personagens.
Obviamente, aqueles alunos não se transformaram em leitores, mas decerto despertaram os sentidos para outras palavras, outras histórias, outros horizontes para além dos que lhes eram familiares.
A batalha contra a Iliteracia não se vence de repente, nem com acções pontuais. Vence-se com audácia, com persistência, com ousadia e sobretudo, com coragem! Coragem de não desistir nunca!
Muitos recordarão ainda o tempo em que a escola era só para alguns e a leitura privilégio de poucos. Hoje, com uma escolaridade obrigatória de 12 anos, todos deveriam ser capazes de ler e escrever eficientemente, mas as estatísticas revelam uma iliteracia preocupante. As medidas escolares e governamentais de motivação para a leitura começam a dar frutos, manifestamente insuficientes, porque, antes de qualquer acção escolar ou governamental, é à família que cabe transmitir à criança o respeito pelo acto de aprender, pela oportunidade de saber cada vez mais. Sem a passagem desse testemunho, a criança sente a escola como um local hostil onde vai por obrigação. Tudo piora quando as letras não se conjugam harmoniosamente, impedindo a leitura e a escrita, a tabuada não se consegue decorar, e a criança conhece os primeiros fracassos. Atitudes desabridas, maus comportamentos, são escapes para uma dor que tem nome: insucesso.
Que fazer então para obstar que a criança do século XXI seja um analfabeto funcional?
Como muito bem sabemos, em Educação, tal como na Vida, não há receitas milagrosas e infalíveis. Há coisas que se fazem que umas vezes dão certo, outras nem por isso, mas quer umas quer outras são âncoras que nos sustentam, impelindo-nos a escolher caminhos que levam a bom porto, deixando para trás alguns becos sem saída. Esta capacidade de que somos feitos – de acreditar que podemos construir, que podemos melhorar, que somos capazes de aprender uns com os outros e que podemos transformar o conhecimento em prazer, e esse prazer em mais ânsia de saber, é, muitas vezes, o que falta às crianças e, porque não dizê-lo, às famílias, à Escola, e até aos governantes. Porque, uma coisa é legislar, implementar medidas para mudar a Educação e a Iliteracia, outra, muito diferente, é motivar para a envolvência de todos os elementos da comunidade educativa a fazer o que for necessário para que, na prática, a mudança aconteça. E não nos enganemos: qualquer mudança demora tempo, o tempo que aparentemente nos escraviza e impede de pensar, avaliar, renovar, tirar conclusões, transformar, melhorar. Hoje, parece que só temos tempo para agir … e esquecemo-nos que a acção impensada é, na maioria das vezes, desastrosa.
Para que os resultados estatísticos sobre a iliteracia em Portugal revelem alguma melhoria, precisamos, antes de mais, de ACREDITAR, de desenvolver uma ATITUDE POSITIVA perante a escola, as letras e os números, de VALORIZAR as aprendizagens, por mais pequenas que aparentem ser, pois essa valorização vai proporcionar PRAZER à criança, e esse gostinho de vitória vai fazer com que acredite em si. Há, então, todo um trabalho de insistência, de incentivo, para que a criança perceba que a PERSISTÊNCIA, o TREINO, o RESPEITO pelo trabalho e função de cada um, e o RIGOR no desempenho das tarefas são as chaves de que carece para seguir em frente, para superar algumas das suas dificuldades e para poder fazer o seu melhor. E isto é tudo o que se deve pedir à criança: que dê o seu melhor! Nada mais, nada menos.
Esta é uma época em que se privilegia o facilitismo, o sucesso de faz-de-conta, o gastar sem ter, o parecer em vez de ser. As crianças do século XXI enfermam de uma visão do mundo repleta de pré-cozinhados, pré-fabricados, fast-food, informação ao segundo, Internet facilitadora de amizades em todos os cantos do mundo, Hi 5s, Messenger, I-pods, e um sem fim de nomes e realidades viciantes, algumas até perigosas. E quando alguém me diz que as crianças de hoje não lêem, eu afirmo sempre que não é verdade. Porque as crianças realmente lêem e escrevem… agora, não lêem e escrevem como as gerações anteriores faziam. As crianças do século XXI não têm a noção de que a leitura é uma ocupação de tempo livre, algo que se faz por prazer, para matar a solidão, para viajar no tempo e no espaço. Estar “sem fazer nada” – leia-se “estar a ler” – é um enorme aborrecimento! Dá muito mais prazer estar à frente de um computador, ou de uma PlayStation a jogar, a enfrentar diabos, monstros ou outros seres fantásticos.
Mas… não serão os jogos de computador, os chats, os Messengers, uma outra maneira de se contar histórias hoje?
Vão longe os dias em que tudo o que se queria era ter um livro para ler e que nos deixassem sossegados, no nosso canto, a tentar descobrir onde nos levava a aventura da leitura. Mais longínquos ainda vão os tempos de ouvir contar uma história, de viva voz e sem suporte livresco. Mas de nada adianta ficar a olhar o passado, que temos sempre a tentação de imaginar melhor do que de facto foi. O problema da iliteracia está aí, no nosso presente, e para que não se perpetue no futuro, há que investir, não desistir, mesmo quando tudo parece apontar para um fracasso mais que certo.
Num mundo cada vez mais global, em que as fronteiras se esbatem e os povos se entrecruzam e miscelanizam, todos temos muito que aprender, porque a realidade, tal como nós, adultos de hoje a conhecíamos, já não existe. Hoje, ninguém é inteiro se não souber ler, e as crianças e os jovens têm de interagir, de saber gerir o conhecimento, de aprender a lidar com a diversidade e com a diferença. A criança é hoje confrontada com uma realidade intercultural que a enriquece, sem dúvida, mas que é também susceptível de a fazer questionar ou questionar-se, de lhe suscitar dúvidas, até de a perturbar, se não tiver crescido num ambiente favorável à aceitação de outras lógicas, outras culturas, outras religiões, outros modos de pensar e de agir. E cabe-nos a nós, adultos, pais, educadores, governantes, o papel de as ajudarmos a crescer na diversidade, na realidade intercultural que transformou países isolados num universo em que cada um pode e deve gerir a sua individualidade, a sua nacionalidade, no respeito pelo outro e na aceitação de todos.
Não podemos esquecer que um mundo como o nosso, em que a velocidade de informação e de mudança é assombrosa, não se compadece com quem não consegue acompanhar as exigências cada vez maiores da sociedade e do mundo laboral.
Às crianças e jovens do século XXI, às crianças da geração TIC e da época digital, exige-se que sejam capazes de gerir a informação, que tratem por tu os computadores, que sejam versáteis e consigam adaptar e transformar, desde muito cedo, conhecimentos e aptidões, rentabilizando-os. Daí que a instrução, a capacidade de ler e escrever fluentemente e o conhecimento de línguas estrangeiras sejam essenciais para o sucesso, mas um sucesso feito à medida de cada um, no respeito pela individualidade, pelas capacidades, pelos saberes e pela cultura de onde provém, mas que leve em linha de conta essa outra realidade que faz de todos e de cada um, cidadãos de um mundo cada vez mais multicolor e intercultural.
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