sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O DESCANSO DO PAI NATAL

Mel era o nome por que a menina gostava de ser chamada. Tinham-lhe dito que o seu nome, Melissa, fora emprestado de um arbusto bonito, com cujas folhas se podia fazer um chá que acalmava os nervos e a barriga, o chá de erva-cidreira.
Explicara-lhe ainda a mãe - que era dessas pessoas que pensavam que o conhecimento não ocupa lugar e que, por mais pequenas que as crianças fossem, elas eram apenas pequenas de tamanho e não de cabecinha - que o seu nome, Melissa, tinha a origem no nome da ninfa grega, Mellona, protectora das abelhas.
- Sabes, Melissa, ainda hoje há uma grande amizade entre a planta do chá, a erva-cidreira, e as abelhinhas. Em cada colmeia só pode existir uma abelha-mestra, que também se pode chamar abelha-rainha, e se, na primavera, nascerem várias rainhas na mesma colmeia, o enxame tem de se dividir, formando enxames menores, cada um com a sua própria abelha-rainha, que parte em busca de um novo sítio para morar.
Os povos antigos sabiam que o cheiro da melissa ou erva-cidreira atraía as abelhas, por isso, para as ajudarem a não andar muito tempo à procura de uma nova casa, punham folhas frescas trituradas em colmeias vazias para atrair os enxames novos. Percebeste, Melissa?
- Hummmm… percebi, mas tudo não! O que é uma ninfa, mãe?
- Uma ninfa é um ser mágico, alado, que vive em sítios maravilhosos como os rios, os lagos ou as florestas.
- Só podem viver aí? E o que quer dizer “alado”?
- Quando gostam muito de um objecto, as ninfas também podem fazer dele a sua casa. As ninfas e os pássaros são seres alados, isto é, seres com asas, entendes Melissa?
- Ahhhhhh….! Já percebi! Elas podem deslocar-se rapidamente de um lado para o outro, não é mãe?
- Sim, e além disso estão sempre alegres, porque protegem a natureza e as pessoas, tal como as fadas, de quem ainda são parentes. Até há quem diga que as ninfas são, nem mais nem menos, do que fadas-criança.
- Obrigada, mãe, por me contares estas coisas todas fantásticas. Tu já viste muitas ninfas? E fadas?
A mãe pensou durante um bocadinho e respondeu:
- Como são muito pequeninas, menos que microscópicas, as ninfas não se conseguem ver muitas vezes, mas podemos senti-las, isso podemos! E eu já as senti muitas e muitas vezes.
- E como é que se sabe que se está a sentir uma ninfa??? – perguntou a Melissa, de olhos arregalados.
A mãe apertou-lhe mais a luva de um dedo só, destinado ao polegar, debaixo da qual se encontrava, quentinha como uma mini-lareira, a sua mãozita de 5 anos. Depois, agachou-se, pôs a sua cara sorridente ao mesmo nível da da Melissa e respondeu:
- Tu só me fazes perguntas difíceis… sabes que as mães nem sempre sabem explicar todas as coisas. Mas eu acho que se sabe que anda por aí uma ninfa a esvoaçar quando as perguntas que temos no nosso coração são respondidas como que num sopro, assim, sem mais nem menos.
Melissa acenou com a cabeça através do gorro vermelho, igual às luvas de um dedo só.
E pôs-se aos pulinhos, enquanto o caminho para a pré-primária ia encurtando cada vez mais.
A mãe tinha daquelas coisas, gostava de a levar a pé, deixando o carro na garagem, porque dizia que era muito mais saudável andar a pé do que sempre de automóvel. Mel concordava, e ia pensando como era bom poder ir saltitando, em vez de ir amarrada a um banco de criança, daqueles que tinham inventado para pespegar nos assentos traseiros das viaturas, sem se poder mexer por causa do cinto de segurança.
Mel tinha um desejo secreto: saber onde descansava o Pai Natal quando já tinha saído da Lapónia para distribuir os brinquedos aos meninos e meninas. Sim, porque isto de andar por milhares de casas e chaminés a subir e a descer, carregadinho de brinquedos, devia ser muito cansativo, e ninguém a convencia que ele era incansável, até porque, o pobrezinho, era assim mais ou menos da idade do avô Zé, que já se cansava muito só de a agarrar ao colo. Dizia ele que ela estava pesada, ela, que só pesava 23 kilos!!! Aquilo só podia ser mesmo da idade, e se o avô Zé se cansava, o Pai Natal também se cansaria, e devia ter um lugar para descansar os pés.
- Ó mãe, tu achas que me podes fazer um favor?
- Claro, Melissa, ora diz lá que favor queres que te faça.
- Pára de me chamar Melissa! Eu sei que é o meu nome e tudo, e até é um nome bonito, eu gosto, e talvez até queira que me chames assim quando eu for crescida. Mas agora, que sou pequenina ainda, não me podias chamar só Mel? É que está mais de acordo comigo, e até tem a ver com as abelhinhas de que me falaste há pouco, não é?
- Oh, nunca tinha pensado nisso, Mel, está muito bem observado! A partir de hoje, deste minutinho, passarás a ser chamada como preferes: Mel! E até dá bem contigo, que és um doce de menina.
Mel puxou a mão da mãe e segredou-lhe ao ouvido, quando ela se baixou:
- Obrigada, mãe!!! Agora vou ficar caladinha e pedir a ajuda de uma ninfa para me dar a resposta ao meu segredo.
E dizendo isto, fechou a boca e começou a falar com a ninfa do seu nome. Dizia ela, dentro da sua cabecinha:
“ Ó ninfa Mellona, já que o meu nome vem do teu, podes ajudar-me a perceber onde é que o Pai Natal descansa nesta quadra do Natal? Eu sei que não te vejo, e até pode ser que tu tenhas mais que fazer do que aturar uma miúda de 5 anos cheia de perguntas, mas se é verdade que existes, eu sei que tu vais arranjar uma maneira de me dar resposta. Vou ficar à espera, está bem?”
Nisto, o caminho tinha-se percorrido todo, sem que Mel desse conta.
- Mel, chegámos! Está na hora do meu beijinho e do meu abraço!
Alegre que nem um passarinho, Mel lançou os braços à roda do pescoço da mãe e deu-lhe um beijo repenicado.
Quando se virou, para entrar na escolinha, mal pode acreditar no que os seus olhos viram: o presépio que tinham construído nas aulas estava armado, no átrio, e a seu lado, pachorrentamente dormindo, sentado no sofá em forma de lua, estava nada mais nada menos do que o Pai Natal!

Hoje, a Mel já deixa que lhe chamem Melissa, e conta aos seus filhos a origem do seu nome, e o segredo que a ninfa lhe desvendou: o Pai Natal descansa no sofá em forma de lua do átrio da escolinha, ao lado do presépio.



Lurdes Pelarigo


11 de Dezembro de 2009

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