quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Era uma vez a Leitura…

Comunicação apresentada no Colóquio Internacional Literatura Infantil e Mundo Globalizado ,  U. do Minho - 29 de Janeiro de 2011


Há muito, muito tempo, a Leitura…


… encontrou, não uma, mas várias bruxas maléficas, conhecidas pelo nome de Novas Tecnologias, que a derrotaram para sempre.

Parece ser este o final de desencanto que muitos vaticinam para a Leitura e, consequentemente, para a Literatura Infantil. Num mundo em mudança e cada vez mais globalizante, papões, monstros e lobos maus assumiram novos nomes: videojogos, chats, Messengers, IPods, iPads, Podcasts, e desta feita não amedrontam as crianças, mas aterrorizam os adultos que, à relutância em aceitar o que é novo, juntam o medo do desconhecido e o embaraço de deixarem de ser “mestres” em algo que dominam, pelo menos minimamente – a leitura – para passarem a eternos aprendizes de outras – as novas tecnologias. E se o mundo nunca esteve parado aos nossos pés, ele nunca girou tão depressa como agora, e tudo por culpa da Internet e de todas as tecnologias de comunicação que transformaram o nosso mundinho circunscrito e regional, caseirinho, num mundo globalizante onde a realidade, tal como a conhecíamos, deixou de existir, onde novas realidades despontam e a aprendizagem ao longo da vida é uma necessidade, pois dela depende, não apenas o futuro, mas o presente de uma sociedade que transtorna e desorienta os novos analfabetos digitais e os iletrados da comunicação.

Mas então, num momento em que tudo se transfigura e altera, haverá lugar para a leitura? E a literatura para a criança, fará sentido? E os livros, desaparecerão? E o ensino, dependerá de professores ou de mestres digitais? Seguramente que se continuasse, as questões multiplicar-se-iam, mas não é nossa intenção empreender o caminho das perguntas mas refletir sobre o tema que dá mote a este congresso: a leitura e a literatura para a Criança dentro do panorama da globalização.

Importa, antes de mais, definir alguns critérios relativamente à terminologia usada, começando pelo de LEITURA:

Etimologicamente, o vocábulo Ler vem do termo latino legere, que encerra três significados: o de soletrar, agrupar as letras em sílabas, formando palavras; o segundo tem como base o texto e relaciona-se com o ato de procurar sentidos no seu interior, e o terceiro vincula o leitor ao texto, retirando deste sentidos inimaginados pelo autor, roubando-lhe protagonismo, e assumindo-se o leitor como agente vivificador do texto criado pelo autor. Ou seja, sem o leitor, não existe texto! Ou melhor, o texto existe, a obra acontece, mas o que é facto é que nada realmente acontece se o texto não é lido e passada palavra sobre ele.

O conceito de Leitura também se tem modificado, consoante o tempo e o espaço em que se fala do ato de ler. No entanto, poderemos dizer que a leitura é a relação privilegiada que o leitor estabelece com o texto, independentemente do suporte em que este se fixou, e do tipo de texto em questão. Não é estranho falar-se da leitura de dados estatísticos, da leitura de um quadro de Picasso, da leitura de uma pauta de música, da leitura de uma fotografia, da leitura da expressão de alguém… Todas estas leituras encerram interpretações pessoais, sociais, de classe, culturais, étnicas, raciais, ideológicas, daí que, quando falamos de leitura, este tenha obrigatoriamente que ser um conceito muito abrangente.

Com as novas tecnologias e a mudança mundial – de uma realidade restrita ao conhecimento de múltiplas realidades – surgem novos conceitos, como o de Literacias. Não basta “saber ler e escrever e contar”, há que relacionar, inferir, miscelanizar conhecimentos e usá-los de forma eficaz para que possamos integrar-nos neste novo mundo constantemente em evolução. A globalização não vem retirar poder à leitura nem à literatura para a infância e juventude, vem, isso sim, acrescentar-lhe novas capacidades de dizer, de ilustrar, de mostrar, de editar, de difundir, de comparar, de criar, de ler, de escrever…

Mudam os suportes, as técnicas, os meios de distribuição e de divulgação. Mas a curiosidade permanece nas crianças e nos jovens, mesmo naqueles que dizem “ler é uma seca!” é vê-los debruçados sobre o computador, é observá-los de telefone em punho a lerem e a enviarem sms’s, é mirá-los nas redes sociais à conversa com gentes dos cantos mais inusitados do mundo. Poder-se-á dizer que isso não é leitura… pois, não o é no sentido de “ler um livro”, mas é certamente num sentido mais abrangente, talvez menos exigente… mas mais compensador porque se lê o que se quer, o que se escolhe, quando apetece, apenas porque sim. E dir-me-ão “ah, mas não podemos chamar a isso leitura!!!” Pois… talvez… ou seguramente que sim, a leitura é algo sério, dir-me-ão… mas eu questiono de novo: e porque terá de ser a leitura antónimo de divertimento, de prazer? E quem somos nós para saber o que é certo, ou se deve ler? Vejamos o que diz Umberto Eco a este respeito, numa crónica do New York Times, de 3 de janeiro de 2011:

“Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler? (…) Harold Bloom define o cânone literário como “a escolha de livros em nossas instituições de ensino”, e sugere que a verdadeira questão (…) é: “o que o indivíduo que ainda deseja ler deveria tentar ler, a essa altura da História? Observa que, na melhor das hipóteses, dentro do tempo de uma vida é possível ler somente uma pequena fração do grande número de escritores que viveram e trabalharam na Europa e nas Américas, sem contar aqueles de outras partes do mundo.”

E sobre a cultura, prossegue:

“Não faz muito tempo, fui a Paris para participar de uma conferência entre intelectuais europeus e chineses. Foi humilhante ver como nossos colegas chineses sabiam tudo sobre Immanuel Kant e Marcel Proust, sugerindo paralelos (que poderiam estar certos ou errados) entre Lao Tsé e Friedrich Nietzsche – enquanto a maioria dos europeus entre nós mal conseguia ir além de Confúcio, e muitas vezes com base somente em análises em segunda mão.”

E acrescenta, questionando:

“A sociedade e a cultura ocidentais foram influenciadas por Shakespeare, pela “Divina Comédia” de Dante, (…) por Homero, Virgílio e Sófocles. Mas será que somos influenciados por eles porque os lemos de fato em primeira mão?”

Talvez por se querer a todo o custo que a leitura seja uma coisa séria é que os jovens fogem dos livros! Mas frente a um instrumento que os pode catapultar para o outro lado do mundo, aí, seguramente eles leem! Se lhes pusermos à frente obras que os estimulem, lhes interessem, os cultivem, os façam saber mais ou, porque não, os façam pura e simplesmente divertir-se, a leitura passará a ser integrada no quotidiano das crianças e dos jovens. Porque a leitura, tal como as redes sociais ou as conversas telefónicas, é um hábito. E os hábitos, se forem bons, até se podem transformar em vícios, que daí não vem mal ao mundo, antes pelo contrário!

Quanto a nós, a globalização não é um problema mas sim uma mais-valia e um desafio: um desafio para os autores, um desafio para os professores, um desafio para os pais e encarregados de educação, enfim, um desafio para os adultos. Porque o contexto mudou, é necessário que o ensino se diversifique, que a Literatura não estagne e que as famílias embarquem sem medo neste comboio de alta velocidade da tecnologia. A ânsia de conhecimento é imparável, e nas crianças e nos jovens, maior ainda.

Cabe-nos a nós orientar esse conhecimento e acarinhar as mudanças, ou incorreremos no perigo das leituras fáceis – leia-se leituras sem qualidade. E sem obras de leitura de qualidade – as obras literárias – não há progresso, não há literacia, não há evolução. Hoje, é fácil escrever/editar, porque a Internet deixa o caminho aberto a todo e qualquer conteúdo, sem crivos de qualidade.

Teremos então de desenvolver padrões de exigência e de gosto literário nas crianças e nos jovens para que consigam distinguir o trigo do joio, as pérolas da vulgaridade. Há que usar e abusar das novas possibilidades de disseminação da cultura, dos autores, da tradição de cada povo, hoje suscetíveis de chegar onde há cem anos era inimaginável conseguir aportar.

A história dos povos sempre se fez do entrecruzar de histórias e de saberes de outros povos e culturas, chegados através dos viandantes, dos contadores de histórias, dos que vinham de outros mundos e de outros lugares distantes. Hoje, o território mais longínquo fica à distância de um click e o homem, como ser social por excelência, e comunicador nato, anseia ligar-se ao outro. Que a globalização não seja um obstáculo a abater mas uma ponte a atravessar, serenamente, em prol da evolução de todos nós, e, principalmente, das nossas crianças e jovens. Para que um dia eles possam acabar esta história como acabam todos os contos de encantar:

E a Leitura passou então a viver num Mundo globalizado, com todos os seus novos amigos: a Internet, o Computador, os Velhinhos Livros de Papel, os Novíssimos Livros Digitais, os Blogues, E-Tudo-o-Mais-que-Adiante-Vier. E todos juntos fizeram felizes para sempre os seres mais importantes do Planeta: as crianças!



WEB-BIBLIOGRAFIA

http://www.ucm.es/info/especulo/numero32/reflexoe.html

http://noticias.uol.com.br/blogs-colunas/colunas-do-new-york-times/umberto-eco/2011/01/03/na-era-da-globalizacao-o-que-deveriamos-ler.jhtm













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