segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Às 5 da manhã, em Almadan

A noite esfriara e a lareira já estava acesa em casa da avó Maria. Constança e Serafim tinham-se aninhado aos pés da avó, à espera que ela começasse a desfiar as suas inúmeras histórias. Quando os pais tinham mais trabalho, ou precisavam de estar um pouco sozinhos para “ recarregar baterias” como eles diziam, ou mesmo só para namorar um pouco, a avó Maria ficava com os dois netos e era certo e sabido que, quando voltassem a casa, as suas cabecinhas iriam repletas de sonhos e ideias para lhes alegrar os dias e inspirar desenhos e histórias, que também eles já gostavam de inventar. 
A avó era uma septuagenária de pouco mais de metro e meio que não deixava os cabelos embranquecer, nem os olhos, de um sereno castanho-mel, perder o brilho. A sua gargalhada ecoava pela casa fora por dá cá aquela palha, e os netos estavam convencidos que ela achara no riso o elixir da eterna juventude.
Constança e Serafim eram os mais novos da família e eram ainda demasiado pequenos para pensar profundamente nas razões que levavam a avó a ser como era: bonita, risonha, bem disposta, excelente companheira de brincadeiras, óptima cozinheira e, acima de tudo, exímia contadora de histórias. Ambos estavam sempre desejosos de ir passar uns dias com os avós, porque os dias com ali passavam rápidos que nem foguetões a jacto, e as noites eram sempre de encantar. Além disso, o avô Manel,  levava-os a passear pelos sítios das histórias que a avó gostava de contar. Era assim como um GPS com pernas e que lhes falava numa voz calorosa, sem nunca se enganar nem ter que recalcular os percursos.
A coisa passava-se quase sempre da mesma maneira: à noite, enquanto a avó se instalava na cadeira alentejana para dar início ao serão, o avô Manel sentava-se na sua cadeira de baloiço, puxava o jornal para fazer as palavras cruzadas ou para ler alguma coisa que ainda não tinha tido tempo de ver com sossego, e nem parecia lá estar. Parecia não estar… mas estava, e bem atento! Constança e Serafim tinham-lhe pedido uma única vez se os podia levar a ver um sítio de que a avó falara nas suas “historietas para netos e netas”, como ela dizia. Ainda se lembravam da lenda e tudo: A Lenda da Moura Salúquia. O avô ouviu-os e disse:
- Ahhhh… com que então gostavam de ir às terras da Moura… Pode ser que se arranje alguma coisa. Vão lá dormir que eu vou pensar no vosso caso.
Claro que nem um nem outro suspeitavam do que os aguardaria na manhã seguinte. Sim, porque uma coisa é uma criança dizer ao avô que gostava de ver os lugares onde se passara uma história que tinham ouvido, e outra, muito diferente, é acordar no dia seguinte e ver um farnel arranjado, em cima da mesa grande da cozinha, e encontrar os avós, todos divertidos, a comunicarem-lhes que os iam levar a Moura, para visitarem as terras da moura Salúquia. Só aí é que eles perceberam que os adultos, às vezes, até nos podem surpreender.
Desde então, já sabiam: a cada serão de contos correspondia uma viagem. E isso era o que mais lhes agradava: a história ia dormir com eles, e depois acompanhava-os nos mais inusitados passeios por esse Portugal fora.
Constança, no alto dos seus treze anos, e Serafim, nos seus nove, encantavam-se com aquela dupla que lhes saíra em sorte: a avó Maria, contadora de histórias, e o avô Manel, caminheiro andante dos mundos físicos das histórias encantadas. 
Tejo, o rafeiro que eles conheciam desde sempre, chegara da sua última saída nocturna e, abanando o rabo, refastelou-se no cesto de verga que lhe servia de cama, aninhando-se na manta de retalhos de lã, aos quadradinhos multicolores, que a avó tecera. Pousou o focinho na berma do cesto e olhou para a avó, assim como quem diz “ já cá estou, pode começar o serão de contos!”
- Pronto, avó, podemos começar, já cá estamos todos!
- Hum… não sei se hoje me apetece… - disse a avó, franzindo a testa e arrebitando o nariz.
- Ó avó…CONTA LÁ!!! – pediram os dois em uníssono.
A avó deu uma das suas gargalhadas cristalinas e transfigurou-se: o seu metro e meio de altura avolumava-se sempre que ela começava a narrar, os olhos ora adocicavam ora endureciam, consoante a história e a personagem, e a voz… AH, a voz…! A voz da avó, quando ela os levava para a Terra Onde Tudo é Possível, a Terra das Histórias e dos Contos, não era uma voz, eram mil vozes, profundas ou estridentes, meiguinhas ou severas, risonhas ou tristes… Enfim, a voz da avó era indescritível e ma-ra-vi-lho-sa!
Respirou um pouco mais fundo e começou, de mansinho.
- Todas as semanas se reuniam, do lado de lá, os Seres Mágicos.
- Ó avó, o que é o lado de lá? – indagou, curioso, o Serafim.
- Ora, mano, o lado de lá é Almada, não é avó? Diz-se “o lado de lá”, ou “a outra banda” porque se tem de atravessar a Ponte para se lá chegar.
- É isso mesmo, minha querida. Mas não é só pela ponte que se chega ao lado sul, pode-se ir também de barco. Eu fui lá muitas vezes, de cacilheiro, e ainda hoje a travessia para o lado de lá se faz usando o Tejo como estrada. Vocês nem imaginam os milhares de pessoas que fazem essa travessia diariamente, para trabalhar, estudar ou apenas passear. Mas dizia eu…   
Todas as semanas se reuniam, do lado de lá, os Seres Mágicos. O local ia variando entre Cacilhas e Porto Brandão, Sobreda, Almada, Caparica, enfim, toda a zona era ideal para aqueles encontros de gente tão especial.
Quando eram os seres das águas os anfitriões, tinham de se encontrar pertinho das águas do Tejo ou das do Oceano Atlântico.
Mas se eram os seres da Terra que recebiam os amigos, sabem qual era o local privilegiado?  A Mata dos Medos.
- A Mata dos Medos, avó? Porque é que se chama assim? – quis saber a Constança.
- Não interrompas, mana, deixa ouvir a avó!
- Deixa, Serafim, tu também deves querer saber por que razão aquela mata tem esse nome, não queres?
- Sim, claro! – replicou ele, esbugalhando mais ainda os olhitos da cor da mata.
- Como vocês sabem, as pessoas têm medo de muitas coisas que não conhecem. Têm medo do escuro, têm medo dos barulhos diferentes, têm medo das sombras, enfim, são umas medrosas, é o que é! O que elas não sabem é que essas coisas de que têm tanto medo são coisas normais, comuns, na casa dos Seres Mágicos. Ora, como vocês muito bem sabem, os lugares perto das águas, dos rios, das matas, das florestas, são nem mais nem menos que os lares dos seres encantados e a Terra Onde Tudo Pode Acontecer. E é só por isso que acontece.
- OHHHHHHHHHHH… E quando se passa esta história, avó?
- Ah, pois é, eu não comecei a contar com Era uma vez, porque desta vez a história passa-se num tempo suspenso entre o tempo das histórias e o tempo sem elas, no passado, mas também no presente, e até no futuro, para além de tudo aquilo a que chamamos Tempo.
- Isso é complicado, avó…
- Só parece que é complicado, mas não é: o que vocês precisam perceber é que os Seres Mágicos são eternos, se os tratarmos com respeito, mas que são também muito frágeis e que, se não tivermos cuidado, podemos perdê-los para sempre! Vocês já imaginaram o que seria de nós todos sem aquelas criaturas que nos oferecem o poder de sonhar, de imaginar?
- Eu nem quero imaginar…
- Nem eu! Só de pensar nisso até fico arrepiada, cheia de “pele-de-galinha”, olha aqui! – ripostou a Constança, mostrando o braço todo eriçado ao irmão.
- Adiante, - continuou a avó – vamos lá então ao conto. Naquela ocasião, o local escolhido para a reunião tinha sido precisamente a Mata dos Medos, porque calhava aos elementos da natureza florestal a organização. Sítios onde há muitas árvores e muito verde são povoados pelos seres  elementais, isto é, os seres que fazem parte daqueles sítios, e na Mata dos Medos há inúmeros Elfos e Duendes, Dríades e, obviamente, Fadas, só para falar nos mais importantes.
Festejavam eles, nesse dia, o aniversário da mais velha de todas as Dríades, e a ocasião era da maior importância. Por isso, na zona mais recôndita da Mata dos Medos, onde os Humanos raramente iam, as fadas andavam numa azáfama a organizar tudo: os raios de sol,  as poças de água, os arco-íris duplos, as nuvens-de-algodão-doce e as nuvens-carneirinho, a brisa-da-mata e o vento-bailarino, a chuva miudinha e a neve-que-só-vinha-de-visita ,
as bolinhas de azevinho, as flores-às-cores e todos os restantes  seres dos cinco elementos da Natureza: Terra,  Ar, Água, Fogo e Metal. Nas reuniões da Natureza, se faltar algum destes elementos, é como se faltasse um filho ou um neto numa casa de família numa noite de consoada.
- Oh, avó, desculpa lá, mas vais ter de me explicar o que são as Dríades, porque eu não sei… - pediu, embaraçado, o Serafim.
- Ah, pois é, isso é muito importante! As Dríades são os seres protetores das árvores, por isso habitam nelas. São muito idosos e zangam-se facilmente se percebem que as suas protegidas estão a ser maltratadas, por isso não gostam de lenhadores.
. Quer dizer, então que quando cortamos lenha para a nossa lareira estamos a tirar as Dríades das suas casas?
- Não, Serafim, porque há árvores que têm de ser cortadas mesmo, para que a floresta também não se aproprie de todo o planeta. Não podemos  é cortar só porque nos apetece, tem de haver um equilíbrio, entendes? O que devemos fazer, sempre que precisamos de cortar uma árvore, ou mesmo só uns ramos, é pedir licença à Natureza e às Dríades, prometendo plantar uma nova árvores por cada uma que tivermos que cortar. Assim, a Natureza fica em paz e as Dríades não se zangam nem entristecem.
- Ok, avó. Continua.
- Os Elfos, como gostavam de fazer cara feia a toda a gente, que é como quem diz, aos intrusos, tinham ficado de vigia e atarefavam-se a verificar se o solo estava bem protegido pelas ervas e pelas flores-do-mato, e se as pedras estavam engalanadas de musgo e líquens. Tudo tinha que indicar como estavam felizes por estarem juntos a festejar a mais idosa de todas as Dríades que, por sinal, tinha um nome bem bonito: Dríade Verdantina. Tinham-lhe chamado assim porque a sua copa era de um verde-esmeralda lindíssimo e as suas folhas faziam lembrar o mar, naqueles dias em que as algas dançam mais à superfície, transformando-o num festim verdejante. Os Elfos são especialistas em plantar cogumelos, e tinham desenvolvido um novo, só para homenagear a aniversariante.
Por sua vez, os Duendes, brincalhões como só eles sabem ser, estavam alerta também, para o caso de alguém se aventurar para aqueles lados da mata sem ser convidado. Caso isso acontecesse, os Duendes fariam esse intruso perder-se por lá, pelo menos por uns tempinhos, até que lhes apetecesse resgatá-lo. Nenhum humano poderia estragar aquela celebração. 
- Ui, já estou com medo de ir até á Mata dos Medos, parece mesmo perigosa.
- Não, Serafim, a mata só é perigosa para quem a maltrata. E se um dia, por acaso, te perderes no campo, chama com a tua mente um Duende e faz-lhe uma oferta: uma pedrinha, uma fruta, uma flor… Verás como depressa encontras o teu caminho de novo. Os Duendes são como as crianças traquinas, gostam de brincar. Não é, Constança?
- Sim, sim. Lembras-te quando eu me perdi quando fomos apanhar pinhas para a lareira, aqui bem pertinho da casa, Serafim?
- Sim, íamos os dois, e tu não tiveste medo nenhum… Agachaste-te, apanhaste uma pedrita com uns veios coloridos e começaste a cantarolar
 “Vem cá meu amigo,
meu amigo duende
Chega-te aqui
 Toma, um presente!” - trauteou o Serafim.
 – Agora percebo tudo… tu não tiveste medo porque já sabias os truques que a avó te tinha ensinado…!!!
- Claro, sou mais velha, sei mais coisas que tu. Mas se estiveres atento, rapidinho vais aprender também.
-  Melhor ainda do que aprender é acreditar que se pode aprender , estar sempre alerta porque, quando menos se espera, zutttttt! Lá vem mais uma coisa nova, ou mesmo, quem sabe, mais uma coisa mágica!!! Não é o que tu sempre dizes, avó?
- É, sim, Serafim. Estou orgulhosa de ti! Estás a perceber que para entrar no mundo dos sonhos e dos encantos é preciso acreditar nele. Mas vamos lá continuar.
Quando estava tudo preparado, e todos os amigos nos seus postos, deu-se início à reunião para homenagear a mais velha Dríade, a Verdantina.  A Fada Fadinha, que era a mais nova de todas as fadas, adiantou-se e começou, com a sua voz melodiosa:
- Hoje completas mais um aniversário, Verdantina, e queremos que nos digas qual é o teu maior desejo, para to podermos satisfazer.
Verdantina sorriu com o seu sorriso e respondeu:
- Obrigada, Fada Fadinha, que falas por todos os seres da nossa casa maior, A Mata dos Medos. Para mim, não quero nada, pois a minha já muito longa vida encheu-me de acontecimentos bons, umas vezes, maus, outras, mas o certo é que a minha tem sido repleta, pois tenho o que de melhor há neste mundo: amigos.
- Mas Verdantina, nós queríamos mesmo muito homenagear-te com esta festa e com a concessão de um desejo, ou dois, ou mesmo três… mais é não podemos, como sabes, porque as Fadas só conseguem satisfazer três das nossas maiores vontades.
- Muito bem, tenho um pedido que te quero fazer, Fada Fadinha. Tenho guardado um segredo nestes útimos anos.
-AHHHHHHHHHHHHHH!!!! – espantaram-se todos.
- É verdade, meus amiguinhos. Já vai para três anos que recebo uma visita silenciosa, uma criança, pouco maior do que um arbusto quando começa a crescer. No tempo dos Humanos, aquela criança, o Bernardo, deve ter uns anos poucochinhos, aí uns onze. E vem até aqui quase todos os meses, pelo menos duas vezes, normalmente ao sábado.
- Mas como é que ele consegue vir até aqui, a esta parte tão densa da mata onde muitos adultos se não aventuram?
- O Bernardo é um explorador, gosta de se embrenhar no bosque e de descobrir as plantas, os insectos, os pássaros. É um menino muito só. Os pais estão separados e ele aparece por aqui sempre que vem passar o fim-de-semana com o pai, que mora ali para os lados da praia. Uma das vezes que ele se encostou, já cansado, ao meu tronco, li-lhe os pensamentos e sabem o que é que eu vi?
- Não, conta lá, Verdantina – pediu o corvo.
-Vi que, àquela criança, ninguém teve tempo para contar uma história.
- Impossível!!! Como é que isso pode ser?
- Não sei… mas é verdade verdadinha. Por isso, o Bernardo é um menino triste, porque não sabe o que há-de fazer com a chama da imaginação. É preciso que se lhe conte ao menos um conto, para que ele possa despertar para o nosso mundo mágico.
- E como vamos nós conseguir que alguém lhe conte um conto, Verdantina?
- Na próxima vez que o Bernardo aqui vier, a Fada do Tempo irá fazê-lo ficar despreocupado com as horas para que ele possa relaxar. Tu, Duende Safadinho, irás trazê-lo, sem que ele dê conta, até aqui, e tu, Fada Fadinha, ficas encarregue de lhe contar a sua primeira história.
- Mas que grande responsabilidade, Verdantina! E se o Bernardo não gostar da história que eu lhe contar?
- Isso é inviável, porque tu és a melhor contadora de histórias da Mata dos Medos.
- Sim, sim, Fada Fadinha, ninguém melhor que tu faz de contadora!
  - Muito bem, fica então assim combinado. Verdantina, verás o teu desejo realizado.- prometeu, adejando as suas asas da cor da água da chuva, a Fada Fadinha. – Mas vamos ter de combinar um sinal para que nós saibamos, quando entrar o Bernardo na Mata, que é dele que se trata.
Depois de pensar um pouco, a Dríade informou:
- Estejam atentos à canção dos meus ramos e ouvirão: Às 5 da manhã, em Almadan!!! Quando isto ouvirem, já sabem que é o Bernardo que está a chegar à nossa mata.
- AH… fantástico, lembraste-te da lenda de Almada? – perguntou o Arco-íris.
- Sim, e podia lembrar-me de muitas mais lendas desta zona, mas acho que esses sons são calmos e os meus ramos não se cansarão muito para entoarem essa canção:
"Às 5 da manhã, em Almadan!!! Às 5 da manhã, em Almadan !!! Às 5 da manhã, em Almadan!!!"
Todos concordaram e, como já se estava a fazer tarde, tiveram que dar a reunião por acabada, pois cada um deles tinha de ir à sua vidinha de todos os dias, que a Natureza, para ser assim natural, não tem muito tempo para descansar.
Passaram uns dias e, num sábado em que os Humanos festejavam o Dia da Criança, Bernardo dirigiu-se, como era seu costume, à Mata dos Medos. Aquele era um sítio que lhe fazia bem, sem ele saber explicar porquê. Gostava de se embrenhar pelo mato dentro e ver as coisas da terra e as coisas do ar. Encontrava sempre coisas e cores diferentes e por vezes até pensava que elas se vestiam de gala só para ele ver. Ele chamava à Mata dos Medos a sua Mata dos Segredos, pois percebia que ela mudava.
Daquela vez, Bernardo começou a ouvir um rumorejar de árvore que parecia chamá-lo. Não distinguia  palavras, mas aquele era um bulício que ele jamais ouvira.
Às 5 da manhã, em Almadan!!! Às 5 da manhã, em Almadan!!! Às 5 da manhã, em Almadan!!!  
Todos os seres da floresta acorreram ao chamamento da Dreíde Verdantina e Bernardo caminhou, caminhou, até que se perdeu – todos nós sabemos bem porquê – e, por fim, cansado, encostou-se ao tronco da casa de Verdantina e adormeceu.
Então, a Fada Fadinha, a melhor contadora de histórias da Mata dos Medos, começou a soprar-lhe ao ouvido esta história:
O DESCANSO DO PAI NATAL

Mel era o nome por que a menina gostava de ser chamada. Tinham-lhe dito que o seu nome, Melissa, fora emprestado de um arbusto bonito, com cujas folhas se podia fazer um chá que acalmava os nervos e a barriga, o chá de erva-cidreira.
Explicara-lhe ainda a mãe - que era dessas pessoas que pensavam que o conhecimento não ocupa lugar e que, por mais pequenas que as crianças fossem, elas eram apenas pequenas de tamanho e não de cabecinha -  que o seu nome, Melissa, tinha a origem no nome da ninfa grega, Mellona, protectora das abelhas.
-  Sabes, Melissa, ainda hoje há uma grande amizade entre a planta do chá, a erva-cidreira, e as abelhinhas. Em cada colmeia só pode existir uma abelha-mestra, que também se pode chamar abelha-rainha, e se, na primavera, nascerem várias rainhas na mesma colmeia, o enxame tem de se dividir, formando enxames menores, cada um com a sua própria abelha-rainha, que parte em busca de um novo sítio para morar.
Os povos antigos sabiam que o cheiro da melissa ou erva-cidreira atraía as abelhas, por isso, para as ajudarem a não andar muito tempo à procura de uma nova casa, punham folhas frescas trituradas em colmeias vazias para atrair os enxames novos. Percebeste, Melissa?
- Hummmm… percebi, mas tudo não! O que é uma ninfa, mãe?
- Uma ninfa é um ser mágico, alado, que vive em sítios maravilhosos como os rios, os lagos ou as florestas.
- Só podem viver aí? E o que quer dizer “alado”?
- Quando gostam muito de um objecto, as ninfas também podem fazer dele a sua casa. As ninfas e os pássaros são seres alados, isto é, seres com asas, entendes Melissa?
- Ahhhhhh….! Já percebi! Elas podem deslocar-se rapidamente de um lado para o outro, não é mãe?
- Sim, e além disso estão sempre alegres, porque protegem a natureza e as pessoas, tal como as fadas, de quem ainda são parentes. Até há quem diga que as ninfas são, nem mais nem menos, do que fadas-criança.
- Obrigada, mãe, por me contares estas coisas todas fantásticas. Tu já viste muitas ninfas? E fadas?
A mãe pensou durante um bocadinho e respondeu:
- Como são muito pequeninas, menos que microscópicas, as ninfas não se conseguem ver muitas vezes, mas podemos senti-las, isso podemos! E eu já as senti muitas e muitas vezes.
- E como é que se sabe que se está a sentir uma ninfa??? – perguntou a Melissa, de olhos arregalados.
A mãe apertou-lhe mais a luva de um dedo só, destinado ao polegar, debaixo da qual se encontrava, quentinha como uma mini-lareira, a sua mãozita de 5 anos. Depois, agachou-se, pôs a sua cara sorridente ao mesmo nível da da Melissa e respondeu:
- Tu só me fazes perguntas difíceis… sabes que as mães nem sempre sabem explicar todas as coisas. Mas eu acho que se sabe que anda por aí uma ninfa a esvoaçar quando as perguntas que temos no nosso coração são respondidas como que num sopro, assim, sem mais nem menos.
Melissa acenou com a cabeça através do gorro vermelho, igual às luvas de um dedo só.
E pôs-se aos pulinhos, enquanto o caminho para a pré-primária ia encurtando cada vez mais.
A mãe tinha daquelas coisas, gostava de a levar a pé, deixando o carro na garagem, porque dizia que era muito mais saudável andar a pé do que sempre de automóvel. Mel concordava, e ia pensando como era bom poder ir saltitando, em vez de ir amarrada a um banco de criança, daqueles que tinham inventado para pespegar nos assentos traseiros das viaturas, sem se poder mexer por causa do cinto de segurança.
Mel tinha um desejo secreto: saber onde descansava o Pai Natal quando já tinha saído da Lapónia para distribuir os brinquedos aos meninos e meninas. Sim, porque isto de andar por milhares de casas e chaminés a subir e a descer, carregadinho de brinquedos, devia ser muito cansativo, e ninguém a convencia que ele era incansável, até porque, o pobrezinho, era assim mais ou menos da idade do avô Zé, que já se cansava muito só de a agarrar ao colo. Dizia ele que ela estava pesada, ela, que só pesava 23 kilos!!! Aquilo só podia ser mesmo da idade, e se o avô Zé se cansava, o Pai Natal também se cansaria, e devia ter um lugar para descansar os pés.
- Ó mãe, tu achas que me podes fazer um favor?
- Claro, Melissa, ora diz lá que favor queres que te faça.
- Pára de me chamar Melissa! Eu sei que é o meu nome e tudo, e até é um nome bonito, eu gosto, e talvez até queira que me chames assim quando eu for crescida. Mas agora, que sou pequenina ainda, não me podias chamar só Mel? É que está mais de acordo comigo, e até tem a ver com as abelhinhas de que me falaste há pouco, não é?
- Oh, nunca tinha pensado nisso, Mel, está muito bem observado! A partir de hoje, deste minutinho, passarás a ser chamada como preferes: Mel! E até dá bem contigo, que és um doce de menina.
Mel puxou a mão da mãe e segredou-lhe ao ouvido, quando ela se baixou:
- Obrigada, mãe!!! Agora vou ficar caladinha e pedir a ajuda de uma ninfa para me dar a resposta ao meu segredo.
E dizendo isto, fechou a boca e começou a falar com a ninfa do seu nome. Dizia ela, dentro da sua cabecinha:
“ Ó ninfa Mellona, já que o meu nome vem do teu, podes ajudar-me a perceber onde é que o Pai Natal descansa nesta quadra do Natal? Eu sei que não te vejo, e até pode ser que tu tenhas mais que fazer do que aturar uma miúda de 5 anos cheia de perguntas, mas se é verdade que existes, eu sei que tu vais arranjar uma maneira de me dar resposta. Vou ficar à espera, está bem?”
Nisto, o caminho tinha-se percorrido todo, sem que Mel desse conta.
- Mel, chegámos! Está na hora do meu beijinho e do meu abraço!
Alegre que nem um passarinho, Mel lançou os braços à roda do pescoço da mãe e deu-lhe um beijo repenicado.
Quando se virou, para entrar na escolinha, mal pode acreditar no que os seus olhos viram: o presépio que tinham construído nas aulas estava armado, no átrio, e a seu lado, pachorrentamente dormindo, sentado no sofá em forma de lua, estava nada mais nada menos do que o Pai Natal!
Hoje, a Mel já deixa que lhe chamem Melissa, e conta aos seus filhos a origem do seu nome, e o segredo que a ninfa lhe desvendou: o Pai Natal descansa no sofá em forma de lua do átrio da escolinha, ao lado do presépio.”
- Cumprido o desejo da Verdantina, a Fada Fadinha deixou o Bernardo acordar suavemente e então…
Bem-dito e louvado, está o conto acabado!
- Ó avó, não pode ser, como é que o conto está acabado se não sabemos o que aconteceu depois ao Bernardo? Isso é batota!!
- Hummm… bem me parecia que vocês não me iam deixar acabar assim.
O que eu queria dizer é que, por hoje, acabou-se. Já se fez muito tarde, e vocês precisam de ir para a terra dos sonhos também. Amanhã há mais.
- Vá, vamos deitar, que a Mata dos Medos espera-nos amanhã de manhã. Iremos lá passar o dia.
- Obrigada, avó, obrigado avô.
E lá subiram a escada, seguidos pelo cãozito Tejo, os dois irmãos, Constança e Serafim. Durante o sono, sabiam que iriam sonhar com todas aquelas personagens da Terra do Faz-de-Conta e no dia seguinte, conforme prometido, iriam até à Mata dos Medos.
Que outras histórias lhes reservaria a avó? E até onde os levaria o avô?


(Conto original com que concorri ao Prémio Literário Maria Rosa Colaço deste ano.) 

Sem comentários:

Enviar um comentário