sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O DESCANSO DO PAI NATAL

Mel era o nome por que a menina gostava de ser chamada. Tinham-lhe dito que o seu nome, Melissa, fora emprestado de um arbusto bonito, com cujas folhas se podia fazer um chá que acalmava os nervos e a barriga, o chá de erva-cidreira.
Explicara-lhe ainda a mãe - que era dessas pessoas que pensavam que o conhecimento não ocupa lugar e que, por mais pequenas que as crianças fossem, elas eram apenas pequenas de tamanho e não de cabecinha - que o seu nome, Melissa, tinha a origem no nome da ninfa grega, Mellona, protectora das abelhas.
- Sabes, Melissa, ainda hoje há uma grande amizade entre a planta do chá, a erva-cidreira, e as abelhinhas. Em cada colmeia só pode existir uma abelha-mestra, que também se pode chamar abelha-rainha, e se, na primavera, nascerem várias rainhas na mesma colmeia, o enxame tem de se dividir, formando enxames menores, cada um com a sua própria abelha-rainha, que parte em busca de um novo sítio para morar.
Os povos antigos sabiam que o cheiro da melissa ou erva-cidreira atraía as abelhas, por isso, para as ajudarem a não andar muito tempo à procura de uma nova casa, punham folhas frescas trituradas em colmeias vazias para atrair os enxames novos. Percebeste, Melissa?
- Hummmm… percebi, mas tudo não! O que é uma ninfa, mãe?
- Uma ninfa é um ser mágico, alado, que vive em sítios maravilhosos como os rios, os lagos ou as florestas.
- Só podem viver aí? E o que quer dizer “alado”?
- Quando gostam muito de um objecto, as ninfas também podem fazer dele a sua casa. As ninfas e os pássaros são seres alados, isto é, seres com asas, entendes Melissa?
- Ahhhhhh….! Já percebi! Elas podem deslocar-se rapidamente de um lado para o outro, não é mãe?
- Sim, e além disso estão sempre alegres, porque protegem a natureza e as pessoas, tal como as fadas, de quem ainda são parentes. Até há quem diga que as ninfas são, nem mais nem menos, do que fadas-criança.
- Obrigada, mãe, por me contares estas coisas todas fantásticas. Tu já viste muitas ninfas? E fadas?
A mãe pensou durante um bocadinho e respondeu:
- Como são muito pequeninas, menos que microscópicas, as ninfas não se conseguem ver muitas vezes, mas podemos senti-las, isso podemos! E eu já as senti muitas e muitas vezes.
- E como é que se sabe que se está a sentir uma ninfa??? – perguntou a Melissa, de olhos arregalados.
A mãe apertou-lhe mais a luva de um dedo só, destinado ao polegar, debaixo da qual se encontrava, quentinha como uma mini-lareira, a sua mãozita de 5 anos. Depois, agachou-se, pôs a sua cara sorridente ao mesmo nível da da Melissa e respondeu:
- Tu só me fazes perguntas difíceis… sabes que as mães nem sempre sabem explicar todas as coisas. Mas eu acho que se sabe que anda por aí uma ninfa a esvoaçar quando as perguntas que temos no nosso coração são respondidas como que num sopro, assim, sem mais nem menos.
Melissa acenou com a cabeça através do gorro vermelho, igual às luvas de um dedo só.
E pôs-se aos pulinhos, enquanto o caminho para a pré-primária ia encurtando cada vez mais.
A mãe tinha daquelas coisas, gostava de a levar a pé, deixando o carro na garagem, porque dizia que era muito mais saudável andar a pé do que sempre de automóvel. Mel concordava, e ia pensando como era bom poder ir saltitando, em vez de ir amarrada a um banco de criança, daqueles que tinham inventado para pespegar nos assentos traseiros das viaturas, sem se poder mexer por causa do cinto de segurança.
Mel tinha um desejo secreto: saber onde descansava o Pai Natal quando já tinha saído da Lapónia para distribuir os brinquedos aos meninos e meninas. Sim, porque isto de andar por milhares de casas e chaminés a subir e a descer, carregadinho de brinquedos, devia ser muito cansativo, e ninguém a convencia que ele era incansável, até porque, o pobrezinho, era assim mais ou menos da idade do avô Zé, que já se cansava muito só de a agarrar ao colo. Dizia ele que ela estava pesada, ela, que só pesava 23 kilos!!! Aquilo só podia ser mesmo da idade, e se o avô Zé se cansava, o Pai Natal também se cansaria, e devia ter um lugar para descansar os pés.
- Ó mãe, tu achas que me podes fazer um favor?
- Claro, Melissa, ora diz lá que favor queres que te faça.
- Pára de me chamar Melissa! Eu sei que é o meu nome e tudo, e até é um nome bonito, eu gosto, e talvez até queira que me chames assim quando eu for crescida. Mas agora, que sou pequenina ainda, não me podias chamar só Mel? É que está mais de acordo comigo, e até tem a ver com as abelhinhas de que me falaste há pouco, não é?
- Oh, nunca tinha pensado nisso, Mel, está muito bem observado! A partir de hoje, deste minutinho, passarás a ser chamada como preferes: Mel! E até dá bem contigo, que és um doce de menina.
Mel puxou a mão da mãe e segredou-lhe ao ouvido, quando ela se baixou:
- Obrigada, mãe!!! Agora vou ficar caladinha e pedir a ajuda de uma ninfa para me dar a resposta ao meu segredo.
E dizendo isto, fechou a boca e começou a falar com a ninfa do seu nome. Dizia ela, dentro da sua cabecinha:
“ Ó ninfa Mellona, já que o meu nome vem do teu, podes ajudar-me a perceber onde é que o Pai Natal descansa nesta quadra do Natal? Eu sei que não te vejo, e até pode ser que tu tenhas mais que fazer do que aturar uma miúda de 5 anos cheia de perguntas, mas se é verdade que existes, eu sei que tu vais arranjar uma maneira de me dar resposta. Vou ficar à espera, está bem?”
Nisto, o caminho tinha-se percorrido todo, sem que Mel desse conta.
- Mel, chegámos! Está na hora do meu beijinho e do meu abraço!
Alegre que nem um passarinho, Mel lançou os braços à roda do pescoço da mãe e deu-lhe um beijo repenicado.
Quando se virou, para entrar na escolinha, mal pode acreditar no que os seus olhos viram: o presépio que tinham construído nas aulas estava armado, no átrio, e a seu lado, pachorrentamente dormindo, sentado no sofá em forma de lua, estava nada mais nada menos do que o Pai Natal!

Hoje, a Mel já deixa que lhe chamem Melissa, e conta aos seus filhos a origem do seu nome, e o segredo que a ninfa lhe desvendou: o Pai Natal descansa no sofá em forma de lua do átrio da escolinha, ao lado do presépio.



Lurdes Pelarigo


11 de Dezembro de 2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

I COLÓQUIO IBÉRICO DE LIT. INFANTIL E INTERCULTURALIDADE/III SIMPOSIUM UN,. LECTORAS

Comunicação apresentada - LER PARA SER

Porque todos nós, que vimos a estes eventos sobre Literatura Infantil, somos, antes de mais, amantes do ouvir e do contar, e só depois, leitores, começo por vos contar uma das minhas experiências, a propósito de leitura.


Depois de nove anos a leccionar numa escola do Algarve, decidi, em 2001, concorrer para Lisboa. Não fazia a menor ideia de que escolas eram melhores, e guiei-me instintivamente pelos nomes de locais que me eram familiares. Fui colocada na EB 2,3 das Olaias, só com 2 turmas e apoio à Biblioteca Escolar. A turma do 6.º ano era composta por meninos e meninas entre os 13 e os 17 anos, fartinhos de saber o que era repetir anos e com doutoramento na disciplina de fazer perder a paciência a um santo. Percebi logo à partida que ia ser muito difícil predispô-los a mudar de atitude e a tentar aprender, mas lá fomos conseguindo gerir os dias. Havia cedências de parte a parte, para que as coisas não ficassem feias, pois era uma escola em que 90% dos alunos tinham contacto directo com o mundo da droga, e em que os encarregados de educação estavam ausentes, muitos deles na cadeia por uso de substâncias ilegais e narcotráfico. Tínhamos decidido, nesse ano, dar A Floresta, da Sophia, como obra de leitura integral e eu dava voltas à imaginação para ver como iria conseguir fazê-lo. Falei com eles, com muito jeitinho. Riram-se, gozaram, afirmaram peremptoriamente que jamais o fariam. Ler um livro inteiro??? Nem pensar !!! Fui para casa a matutar naquilo e, na aula de dois tempos seguinte propus-lhes que lessem uma, no máximo duas páginas do livro, que eu me encarregaria de lhes facultar. Torceram o nariz, mas aquiesceram. Fotocopiei então o livro, a que retirei o número das páginas e distribuí ao acaso uma folha a cada um dos alunos. Propus uma leitura-jogo, em que cada um, ou cada par, tentaria descobrir qual era a página que ligava com a que o colega acabara de ler. E de leitura que ninguém queria, passámos a leitura desejada, a leitura-festa, a leitura participada e construída por todos e cada um. Entusiasmaram-se, fizeram trabalho de pares, escreveram perguntas e respostas, ilustraram, e a partir daí, quando algum professor faltava, iam ter comigo à Biblioteca da Escola e entretinham-se a desfolhar livros, a ler excertos e a trocar impressões sobre tramas e personagens.

Obviamente, aqueles alunos não se transformaram em leitores, mas decerto despertaram os sentidos para outras palavras, outras histórias, outros horizontes para além dos que lhes eram familiares.

A batalha contra a Iliteracia não se vence de repente, nem com acções pontuais. Vence-se com audácia, com persistência, com ousadia e sobretudo, com coragem! Coragem de não desistir nunca!

Muitos recordarão ainda o tempo em que a escola era só para alguns e a leitura privilégio de poucos. Hoje, com uma escolaridade obrigatória de 12 anos, todos deveriam ser capazes de ler e escrever eficientemente, mas as estatísticas revelam uma iliteracia preocupante. As medidas escolares e governamentais de motivação para a leitura começam a dar frutos, manifestamente insuficientes, porque, antes de qualquer acção escolar ou governamental, é à família que cabe transmitir à criança o respeito pelo acto de aprender, pela oportunidade de saber cada vez mais. Sem a passagem desse testemunho, a criança sente a escola como um local hostil onde vai por obrigação. Tudo piora quando as letras não se conjugam harmoniosamente, impedindo a leitura e a escrita, a tabuada não se consegue decorar, e a criança conhece os primeiros fracassos. Atitudes desabridas, maus comportamentos, são escapes para uma dor que tem nome: insucesso.

Que fazer então para obstar que a criança do século XXI seja um analfabeto funcional?

Como muito bem sabemos, em Educação, tal como na Vida, não há receitas milagrosas e infalíveis. Há coisas que se fazem que umas vezes dão certo, outras nem por isso, mas quer umas quer outras são âncoras que nos sustentam, impelindo-nos a escolher caminhos que levam a bom porto, deixando para trás alguns becos sem saída. Esta capacidade de que somos feitos – de acreditar que podemos construir, que podemos melhorar, que somos capazes de aprender uns com os outros e que podemos transformar o conhecimento em prazer, e esse prazer em mais ânsia de saber, é, muitas vezes, o que falta às crianças e, porque não dizê-lo, às famílias, à Escola, e até aos governantes. Porque, uma coisa é legislar, implementar medidas para mudar a Educação e a Iliteracia, outra, muito diferente, é motivar para a envolvência de todos os elementos da comunidade educativa a fazer o que for necessário para que, na prática, a mudança aconteça. E não nos enganemos: qualquer mudança demora tempo, o tempo que aparentemente nos escraviza e impede de pensar, avaliar, renovar, tirar conclusões, transformar, melhorar. Hoje, parece que só temos tempo para agir … e esquecemo-nos que a acção impensada é, na maioria das vezes, desastrosa.

Para que os resultados estatísticos sobre a iliteracia em Portugal revelem alguma melhoria, precisamos, antes de mais, de ACREDITAR, de desenvolver uma ATITUDE POSITIVA perante a escola, as letras e os números, de VALORIZAR as aprendizagens, por mais pequenas que aparentem ser, pois essa valorização vai proporcionar PRAZER à criança, e esse gostinho de vitória vai fazer com que acredite em si. Há, então, todo um trabalho de insistência, de incentivo, para que a criança perceba que a PERSISTÊNCIA, o TREINO, o RESPEITO pelo trabalho e função de cada um, e o RIGOR no desempenho das tarefas são as chaves de que carece para seguir em frente, para superar algumas das suas dificuldades e para poder fazer o seu melhor. E isto é tudo o que se deve pedir à criança: que dê o seu melhor! Nada mais, nada menos.

Esta é uma época em que se privilegia o facilitismo, o sucesso de faz-de-conta, o gastar sem ter, o parecer em vez de ser. As crianças do século XXI enfermam de uma visão do mundo repleta de pré-cozinhados, pré-fabricados, fast-food, informação ao segundo, Internet facilitadora de amizades em todos os cantos do mundo, Hi 5s, Messenger, I-pods, e um sem fim de nomes e realidades viciantes, algumas até perigosas. E quando alguém me diz que as crianças de hoje não lêem, eu afirmo sempre que não é verdade. Porque as crianças realmente lêem e escrevem… agora, não lêem e escrevem como as gerações anteriores faziam. As crianças do século XXI não têm a noção de que a leitura é uma ocupação de tempo livre, algo que se faz por prazer, para matar a solidão, para viajar no tempo e no espaço. Estar “sem fazer nada” – leia-se “estar a ler” – é um enorme aborrecimento! Dá muito mais prazer estar à frente de um computador, ou de uma PlayStation a jogar, a enfrentar diabos, monstros ou outros seres fantásticos.

Mas… não serão os jogos de computador, os chats, os Messengers, uma outra maneira de se contar histórias hoje?

Vão longe os dias em que tudo o que se queria era ter um livro para ler e que nos deixassem sossegados, no nosso canto, a tentar descobrir onde nos levava a aventura da leitura. Mais longínquos ainda vão os tempos de ouvir contar uma história, de viva voz e sem suporte livresco. Mas de nada adianta ficar a olhar o passado, que temos sempre a tentação de imaginar melhor do que de facto foi. O problema da iliteracia está aí, no nosso presente, e para que não se perpetue no futuro, há que investir, não desistir, mesmo quando tudo parece apontar para um fracasso mais que certo.

Num mundo cada vez mais global, em que as fronteiras se esbatem e os povos se entrecruzam e miscelanizam, todos temos muito que aprender, porque a realidade, tal como nós, adultos de hoje a conhecíamos, já não existe. Hoje, ninguém é inteiro se não souber ler, e as crianças e os jovens têm de interagir, de saber gerir o conhecimento, de aprender a lidar com a diversidade e com a diferença. A criança é hoje confrontada com uma realidade intercultural que a enriquece, sem dúvida, mas que é também susceptível de a fazer questionar ou questionar-se, de lhe suscitar dúvidas, até de a perturbar, se não tiver crescido num ambiente favorável à aceitação de outras lógicas, outras culturas, outras religiões, outros modos de pensar e de agir. E cabe-nos a nós, adultos, pais, educadores, governantes, o papel de as ajudarmos a crescer na diversidade, na realidade intercultural que transformou países isolados num universo em que cada um pode e deve gerir a sua individualidade, a sua nacionalidade, no respeito pelo outro e na aceitação de todos.

Não podemos esquecer que um mundo como o nosso, em que a velocidade de informação e de mudança é assombrosa, não se compadece com quem não consegue acompanhar as exigências cada vez maiores da sociedade e do mundo laboral.

Às crianças e jovens do século XXI, às crianças da geração TIC e da época digital, exige-se que sejam capazes de gerir a informação, que tratem por tu os computadores, que sejam versáteis e consigam adaptar e transformar, desde muito cedo, conhecimentos e aptidões, rentabilizando-os. Daí que a instrução, a capacidade de ler e escrever fluentemente e o conhecimento de línguas estrangeiras sejam essenciais para o sucesso, mas um sucesso feito à medida de cada um, no respeito pela individualidade, pelas capacidades, pelos saberes e pela cultura de onde provém, mas que leve em linha de conta essa outra realidade que faz de todos e de cada um, cidadãos de um mundo cada vez mais multicolor e intercultural.
















 

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Formar leitores: a importância da rotina e do exemplo

Quando uma criança nasce, todos os que a cercam estão conscientes da importância do exemplo e das rotinas na educação e na socialização dessa criança. À partida, ninguém traz inscrito no seu código genético regras sociais, éticas, comportamentais, e é a sociedade, nos seus agentes mais próximos – família, educadores, professores, amigos - que lhe incutirá esses mesmos princípios, valores e comportamentos. Mas de nada serve falar das coisas sem as pôr em prática, de forma sistemática, no dia-a-dia. Exigir de uma criança que seja pontual quando os pais não o são é uma irresponsabilidade e uma contradição que facilita a rebeldia na criança, ao perceber que lhe impõem regras que os adultos são incapazes de cumprir. A educação de uma criança faz-se mais através do exemplo e dos procedimentos de rotina que de longas práticas de oratória. Fazer um discurso inflamado sobre as vantagens de determinado comportamento em detrimento de qualquer outro é muito menos eficaz que agir de modo correcto. A acção aqui é como a imagem “vale mais que mil palavras”. De pouco adianta também o exemplo esporádico, a rectidão e o rigor pontuais, porque a educação, a instrução e a socialização são incompatíveis com o desleixo e a inconsequência. Cada dia conta, na formação de uma criança. O tempo não pára e a evolução dos primeiros anos de vida é determinante no sucesso da criança quando aprende a ler e a escrever, a expressar-se e a criar, a contar e a extrapolar ideias, a formar opiniões, a sintetizar e a exprimir-se.

Para que a leitura se transforme numa capacidade ou competência, deve ser treinada diariamente, como se de um desporto de alta competição se tratasse. Até porque os nossos jovens estão a ser instruídos para serem equiparados a outros jovens, por esse mundo fora! Parece-nos, porém, que muitas vezes, as prioridades estão algo baralhadas, tanto nas cabeças dos pais, como nas dos jovens. Senão, vejamos: o treino físico é importante para muitos pais, que inscrevem as crianças em desportos, em clubes, mas quando se fala em treinar a leitura ou a capacidade de escrita, numa base diária, semanal, persistente, acham essa ideia muito estranha, porque pode colidir com o treino de futebol, de ténis, de ginástica… As novas tecnologias e a Internet são também privilegiadas, em detrimento da leitura e da escrita. As actividades extra-curriculares assumem, cada vez mais, um cariz prioritário nas vidas dos novos pais e das crianças e adolescentes que se esquecem, amiúde, que vivemos num mundo global e globalizante, sem dúvida, mas que é precisamente por esse cariz de universalidade que precisamos cada vez mais de ser competentes, rigorosos, eficazes e eficientes em todos os domínios. A sociedade competitiva não se compadece com jovens analfabetos funcionais, com adultos que não sabem escrever uma carta ou expor as suas ideias. A sociedade do século XXI não admite fracassos e a iliteracia não é sustentável num mundo de desafios cada vez maior e mais aguerridos.

Esquece-se que a leitura e a escrita começam muito antes da criança entrar na escola.

A leitura começa no primeiro livro que a criança agarrou e meteu na boca, pensando que era bom para mastigar.

A leitura começa na primeira página de jornal em que ela se mascarrou, com ar deliciado.

A leitura começa na tentativa de virar a página da revista que a mãe está a ler enquanto agarra a criança ao colo.

A leitura começa no livro de pano ou plástico que se põe no banho, para a criança brincar.

A leitura começa no livro infantil só com imagens que se dá à criança enquanto ela se familiariza com essa tarefa hercúlea de começar a usar o bacio.

A leitura começa nas histórias contadas ao adormecer.

A leitura começa nas canções de roda, nas lenga-lengas, nos trava-línguas…

Quando se fazem estas coisas, está-se a investir na formação da criança-leitora, através do incentivo, do exemplo, de alguém a quem imitar e de uma rotina gostosa de manusear livros, de os virar e revirar, de os separar, de se irritar com eles ou de os amar perdidamente.

O papel dos pais, dos avós, dos amigos, dos professores, enfim, do seu círculo emocional mais restrito, são primordiais na formação do leitor e na divulgação dessa cultura de ler por prazer e não como tortura.

E se virmos uma criança ou um jovem a ler, apenas “porque sim”, podemos ter a certeza que ali está um leitor.

domingo, 10 de maio de 2009

Crescer rodeado de palavras

No tempo em que eu era demasiado pequena para ler ou escrever, as histórias contadas pelos mais velhos fizeram-me gostar de ouvir.
No tempo em que eu era apenas filha única, a leitura trouxe-me irmãos.
No tempo em que não me deixavam ter animais de estimação, os livros emprestavam-me cães e papagaios, peixinhos dourados e lobos que se sentavam ao meu lado, se encarrapitavam no meu ombro ou dançavam à minha frente, e ali se deixavam ficar, fazendo-me companhia.
Nos tempos em que a tristeza me visitava, ler fazia-me chorar tudo aquilo que a minha alma desejava, afogando a lama triste que brotara em mim.
Nos tempos em que me enamorei, e escrevi versos de amor e histórias de encantar, descobri que, mesmo quando os finais são menos risonhos, podem sempre transformar-se numa eternidade doce, pela força mágica das palavras.
No tempos em que a dor me invadia, através da leitura ou da escrita eu evadia-me para paragens menos sofridas.
Nesses espaços-refúgio, nesses ninhos confortáveis, aprendi a sarar, a valorizar, a crescer, a dar -me alguma trégua.
O espaço da palavra escutada, da palavra lida, da palavra escrita, fez de mim o ser que sou.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

POEMINHA PRAZEIROSO

Era uma vez uma história
Que de história nada tinha
Eram palavras à solta
Volta e meia meias tontas
Que queriam nascer ali
Bem da pontinha de tinta
Da caneta milagreira
Que fazia acontecer
Histórias que não eram pra ser.

Era uma vez uma menina
Que queria porque queria
Saber uma história nova
Em cada dia que havia.
Mas como não tinha quem
Lhas lesse ou lhas contasse
Àquela velocidade
A menina magicou
Tanto pensou e pensou
Que arranjou uma maneira
De ter sempre à cabeceira
Uma história novinha em folha
E própria pr' à sua idade.

E perguntas tu então
Como é que isso aconteceu?
Não digo!
Digo?
Sim?
Não?...

Resolvi dar-te o segredo
Da menina-criativa
Que da sua cabecinha
Sempre que queria uma história...
Sacava uma personagem
Compunha um cenário-miragem
E mil peripécias tais
Que uma história toda nova,
Mesmo novinha em folha
Não lhe faltava jamais!

E aqui fica o segredo
Das histórias por haver
Que a menina-criativa
Sempre que lhe apetecia
Fazia acontecer.

Lurdes Pelarigo

CRIAÇÃO



Conto escutado na VIII Palavras Andarilhas, em Setembro de 2006, em Beja, de autoria de Nicolás Buenaventura, dito pelo próprio, acompanhado por Sandra Sanchéz. Os poemas ditos por esta parelha são acompanhados pelos mais diversos sons e por um violoncelo. Por me ter tocado profundamente, cheguei ao hotel, quase às 2 da manhã e a primeira coisa que fiz foi pegar no portátil e fixar o texto. Porém, para cumprir a tradição de quem conta um conto, acrescenta um ponto, esta é uma versão adaptada do texto escutado.


CRIAÇÃO

Deus, que resistira à tentação de fazer o Homem à sua imagem e semelhança, cumprindo a sua função de Criador, entretinha-se a fazer o Mundo.
Fez primeiro a Terra e quando a deu por pronta mirou-a, sorriu e sentiu-se satiafeito.
Sobraram-lhe pedacinhos de nada, résteas, desperdícios, migalhas.... e tudo Deus guardou.
Decidiu depois fazer a Água e na Terra surgiram os Mares, os Rios e os Oceanos.
Sobraram-lhe pedacinhos de nada, résteas, desperdício, migalhas... Então, Deus aproveitou e polvilhou a Terra de lagos e de cascatas, de ribeirinhos, de riachos e de nascentes.
Sobraram-lhe pedacinhos de nada, résteas, desperdício, migalhas.... e tudo Deus guardou.
Fez então Deus as árvores, que pela Terra espalhou. Delas nasceram florestas que Deus, contente mirou.
Sobraram-lhe pedacinhos de nada, résteas, desperdício, migalhas.... e tudo Deus guardou. Reparando que já tinha de lado muitos pedaços, pegou em todos eles e num abismo os atirou.
Criou então Deus as cores para na Terra pôr os árco-íris dos dias: criou as rosas e as margaridas, as glicínias e as papoilas, os malmequeres e os girassóis, as maçãs e as laranjas, os limões e as romãs...
Sobraram-lhe pedacinhos de nada, résteas, desperdício, migalhas.... e no abismo os atirou.
Lá em baixo, nesses pedacinhos de nada, résteas, desperdício, migalhas, crescia uma vontade enorme de ser. O Homem queria também ser criado e pediu a Deus que o fizesse. Mas Deus respondeu: NÃO!!!!
E voltou para a sua tarefa de criador.
Pintou um céu muito azul e deu-lhe um amigo para o dia e uma amiga para a noite: O Sol e a Lua. Depois, acrescentou as estrelas, os planetas, o espaço, o tempo e a distância.
Sobraram-lhe pedacinhos de nada, résteas, desperdício, migalhas... e no abismo os atirou.
Criar em seguida os pássaros e os insectos, os bichos grandes e pequenos, ferozes e dóceis.
Sobraram-lhe pedacinhos de nada, résteas, desperdício, migalhas.... e no abismo os atirou.
Lá em baixo, nesses pedacinhos de nada, résteas, desperdício, migalhas, continuava a crescer uma vontade enorme de ser.
Deus dedicou-se então à criação da beleza, dos sons, do movimento, do horizonte e do firmamento.
Sobraram-lhe pedacinhos de nada, résteas, desperdício, migalhas.... e no abismo os atirou.
Lá em baixo, nesses pedacinhos de nada, résteas, desperdício, migalhas, continuava a crescer uma vontade enorme de ser.
E era tão grande, tão grande essa vontade de ser, tão premente, tão importante, que o Homem dividiu-se em dois e aconteceu!
É por isso que o homem tem sempre um pouco de Terra... um pouco de Mar...um pouco de Árvore...um pouco de Céu.... um pouco de Sol...
E é por isso que a mulher tem sempre um pouco de Água...um pouco de Floresta... um pouco de ´Pássaro... um pouco de Noite... um pouco de Lua...